Alguns dias depois da tal decisão do STF, foram publicados dois artigos na ZH: um da Manuela D´Ávila (que todos sabemos quem é), aplaudindo a decisão histórica, e o outro do Gerson Shcmidt (um padre e jornalista que eu não conhecia - e acho que 97,25% da população também não conhece), achincalhando a aprovação da união homoafetiva.
Pois bem. Para dar a real dimensão da problemática do Gerson, sou obrigada a reproduzir suas "assustadoras palavras", destacando, com pavor, alguns trechos enigmáticos:
"Sabemos, por tradição e pelas escrituras, que o Criador fez o homem e a mulher, TÃO SOMENTE NESSA MODALIDADE, como núcleo primitivo da família humana. (...) Essa é a forma digna e compatível com a essência do ser humano, conduzindo-o a uma união estável, HETEROAFETIVA, CONSTRUÍDA POR DEUS. DEUS FEZ ASSIM, O HOMEM INVENTA DIFERENTE.(...) Por mais que as sociedades DEMOCRÁTICAS permitam legitimamente a união homossexual, nada vai se comparar com o original e primitivo projeto de Deus de constituir a família humana de um homem (VARÃO) e uma mulher (FÊMEA) e dos filhos e filhas que Deus confiar ao casal abençoado. (...)".
Nem sei como consegui reproduzir as palavras do Padre Gerson. O fato é que elas me fizeram pensar por vários minutos sobre a humanidade dos humanos e sobre a defesa da liberdade de pensamento/expressão. Sempre adorei a tal frase que diz mais ou menos isso: " posso não concordar com nenhuma das palavras que tu disseres, mas defenderei até a morte o direito que tens em dizê-las" (dizem que é do Voltaire, mas como confiar se nenhum de nós estava por lá quando ele disse...mas, enfim...confiaremos nos registros históricos...etc etc) .É muito impactante dizer isso. Sempre me senti uma defensora da liberdade ao repetir o Voltaire.Mas aí me peguei numa contradição: eu continuava repetindo o Voltaire apesar da minha crescente indisposição com a falta de criatividade que nos faz repetir as palavras dos outros para mostrarmos o quanto somos cultos e inteligentes. Pois é. Muito mais fácil usar os pensamentos dos outros do que discutirmos sobre sua real eficácia, mas...isso é outro assunto.
Prosseguindo.
O que o Gerson, ou melhor, Padre Gerson disse doeu. Na mesma hora pensei: "mas quem foi que deixou essa pessoa publicar isso? como é que ele conseguiu a parte superior da página 17 do jornal de maior circulação desse Estado?". Não consegui sustentar o Voltaire. Não deu para defender as palavras de um padre que vai de encontro a tudo o que o Cristianismo é. Pois, sim. Se ele é padre, pressuponho que seja Cristão.
Foi o cristianismo que confrontou, inicialmente, as desigualdades da polis grega ( não sei muito, mas mais ou menos assim: mulheres, pobres, escravos não eram, sequer, cidadãos...as crianças com deficiências eram atiradas do penhasco...etc etc....). Crescemos aprendendo que foi a mensagem cristã, foi Cristo que ofereceu abrigo, que reconheceu a humanidade existentente nas crianças, nos velhos, nos doentes, nos fracos e, principalmente, nos que erram. E foram as sociedades que conheceram o cristianismo que primeiro ensaiaram as noções de direitos humanos (friso: apenas ensaiaram as primeiras noções, não significando que sejam exemplos de respeito irrestrito a esses direitos).
O Padre Gerson não está solitário. Junto com ele outros amparam a homofobia em textos sagrados, esquecendo que cada ser humano merece respeito, pois cada um de nós traz algo de sagrado indissociável. Os religiosos, como Padre Gerson,acreditam que apenas os que seguem seus preceitos estão corretos. Os outros, os diferentes, merecem discriminação, pois são "diferentes, sujos, abomináveis". Padre Gerson defende o discurso do ódio, da intolerância e do preconceito. E Jesus nessa história toda? Abandonado. Abandonado pelo Padre Gerson que deve se dizer o maior conhecedor da palavra de Cristo. Nas minhas aulas de religião do colégio (tinha até um grupinho muito divertido do qual eu participava "os amiguiinhos de Jesus", onde cantávamos rindo "louvado seja o meu senhor..."), lembro que Jesus era sempre o "querido": batia papo com as criancinhas, era bacana com o pessoal que errava e até fazia pão e vinho pro pessoal ficar numa boa. E agora vem o Padre Gerson nos dizer que esse Jesus não quer que o Joãzinho se case com o José e adotem a Mariazinha? Vem ele nos dizer que amor não é isso aí não. Amor é o do homem com a mulher e ponto. Ou melhor: não é amor, é apenas o varão com a fêmea para procriar e ponto final.
Conclusão (ainda bem, porque que textinho longo):
1) O Estado Laico venceu (e, a meu ver, embora pareça contraditório, Jesus venceu - sim, o discurso dele de amparo irrestrito a todos foi o que se sobrepôs ao discurso do ódio da galera do Padre Gerson).
2) Eu nunca mais vou repetir as palavras do Voltaire.