Sobre a greve dos servidores públicos, estou desenvolvendo teses mirabolantes - nem tanto, mas é bom valorizar a posse de bola. Contudo, diante de minha preguiça intelectual momentânea (como se as coisas mudassem muito em momentos de grande vivacidade intelectual hehehe), serei breve. Ou não. Depende do ponto de vista.
Sempre gostei dos movimentos dos trabalhadores fracos e oprimidos, pois a força da voz daqueles que foram obrigados a calar é o que torna o mundo "interessante". É a insatisfação que determina a velocidade e a direção para onde mundo gira. E a insatisfação, como o amor, tem diversas faces: uma é mais rebelde, intolerante, faz motim, levantes, rebeliões; outra é mais conciliadora, menos invasiva, preza - e acredita- no diálogo. Estar insatisfeito faz com que se queira ventilar o mofo, arejar as ideias e buscar a transformação - a mudança. E cada um faz a mudança do seu jeito. Faz do jeito que pode, do jeito que consegue. E do jeito que a ocasião permita.
Contudo, entretanto, porém, há pessoas que acreditam, veementemente, que o seu jeito é melhor do que de outro. A soberba, a presunção de estar sempre certo parece que é inerente ao ser humano. Mesmo em tempos de dita democracia, mesmo em países que se dizem democráticos, constata-se a ditadura do "eu tenho a razão e tu...e tu cala a boca". O engraçado é que, em inúmeras ocasiões, há mais democracia em Estados dito ditatoriais do que...deixa pra lá...isso é assunto para outro momento. Temos, portanto, diversas formas de demonstrar nossa insatisfação (e diversas formas de demonstrar o amor), mas temos poucas defesas da diversidade. Muitos são os insatisfeitos e poucos são os democráticos.
Isso nas relações de trabalho (assim como nas relações amorosas) se mostra da seguinte forma: embora as duas partes queiram, ao fim e ao cabo, as mesmas coisas, elas passam brigando e defendendo suas ideias individualmente. Como se a felicidade consistisse no rompimento do vínculo: se acabarmos o relacionamento ou se trocarmos de parceiro - se extinguirmos o contrato de trabalho ou se trocarmos de empregador - as coisas podem / vão melhorar. Mas se romper não estiver nos nossos planos, nos resta brigar por nossas insatisfações. Brigar. E brigar mesmo.
Temos, assim, de um lado os "patrões", os "donos do poder", dizendo que estão sobrecarregados com a carga tributária e etc e tal; os empregados, do outro lado, revoltados com baixos salários, péssimas condições de trabalho e etc e tal. De um lado, temos os funcionários públicos postulando plano de carreira, horários flexíveis, reposição salarial e etc e tal; de outro, temos o Estado e o limite orçamentário e a Lei Camata - dizendo que não podem gastar mais do que o limite fixado pela lei de responsabilidade fiscal e etc e tal.
O lítígio instalado. Duas partes na luta incessante pela defesa do seu ponto de vista. Não há como se colocar no lugar do outro para tentar entender seu argumento. É impossível ouvir o que o outro, porque sou seu inimigo e é contra ele que estou lutando - sim, muitas vezes, a briga não se limita às ideias divergentes, se estende "à pessoa do réu". Pergunte para um grevista suas motivações; pergunte ao administrador as suas. Não é igual a um casal brigando? Cada um tem sua versão sobre "a coisa toda" ... e o pior? Cada um tem suas razões. No fundo, no fundo, os dois lados estão certos. Mas, e aí hein?
E aí vem a minha mirabolante conclusão momentânea para acabar logo esse texto de hoje:
Assim como no trabalho, assim como no amor: Cada um puxa a brasa para o seu assado!
Assim como no trabalho, assim como no amor: Cada um puxa a brasa para o seu assado!
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